acf domain was triggered too early. This is usually an indicator for some code in the plugin or theme running too early. Translations should be loaded at the init action or later. Please see Debugging in WordPress for more information. (This message was added in version 6.7.0.) in /home2/fabbof55/public_html/wp-includes/functions.php on line 6131David Tal, Editor, Futurista da Quantumrun. Tradu\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o e autorizada para FABBO Futuros.<\/em><\/p>\n\n\n\n 2046 – Deserto Sonoran, perto da fronteira EUA\/M\u00e9xico<\/p>\n\n\n\n “H\u00e1 quanto tempo voc\u00ea est\u00e1 viajando?” perguntou Marcos.<\/p>\n\n\n\n Fiz uma pausa, sem ter certeza de como responder. “Parei de contar os dias”.<\/p>\n\n\n\n Ele acenou com a cabe\u00e7a. “Meus irm\u00e3os e eu, chegamos aqui do Equador. Esperamos tr\u00eas anos por este dia”.<\/p>\n\n\n\n Marcos parecia ter minha idade. Sob a luz verde p\u00e1lida da van, pude ver cicatrizes na testa, no nariz e no queixo dele. Ele ostentava as cicatrizes de um lutador, de algu\u00e9m que lutou por cada momento da vida que ele estava prestes a arriscar. Seus irm\u00e3os, Roberto, Andr\u00e9s e Juan, n\u00e3o pareciam ter mais de dezesseis, talvez dezessete anos de idade. Eles carregavam suas pr\u00f3prias cicatrizes. Eles evitavam o contato visual.<\/p>\n\n\n\n “Se voc\u00ea n\u00e3o se importa que eu pergunte, o que aconteceu da \u00faltima vez que voc\u00ea tentou atravessar?” perguntou Marco. “Voc\u00ea disse que esta n\u00e3o foi sua primeira vez”.<\/p>\n\n\n\n “Quando chegamos ao muro, o guarda, aquele que pagamos, n\u00e3o apareceu. Esperamos, mas depois os drones nos encontraram. Eles jogaram suas luzes sobre n\u00f3s. N\u00f3s corremos para tr\u00e1s, mas alguns outros tentaram seguir em frente e subir o muro”.<\/p>\n\n\n\n “Ser\u00e1 que eles conseguiram?”<\/p>\n\n\n\n Eu balancei a cabe\u00e7a negativamente. Eu ainda podia ouvir o som da metralhadora. Levei quase dois dias para voltar \u00e0 cidade a p\u00e9, e quase um m\u00eas para me recuperar das queimaduras solares. A maioria das pessoas que voltaram comigo n\u00e3o conseguiram fazer o caminho todo sob o calor do ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n “Voc\u00ea acha que desta vez vai ser diferente? Voc\u00ea acha que vamos conseguir atravessar?”<\/p>\n\n\n\n “Tudo o que sei \u00e9 que estes coiotes t\u00eam boas conex\u00f5es. Estamos atravessando perto da fronteira com a Calif\u00f3rnia, onde j\u00e1 vive muita gente da nossa esp\u00e9cie. E o ponto de travessia para o qual estamos indo \u00e9 um dos poucos que ainda n\u00e3o foi consertado depois do ataque de Sinaloa no m\u00eas passado”.<\/p>\n\n\n\n Eu podia dizer que essa n\u00e3o era a resposta que ele queria ouvir.<\/p>\n\n\n\n Marcos olhou para seus irm\u00e3os, com seus rostos s\u00e9rios, olhando para o ch\u00e3o poeirento da van. Sua voz era severa quando ele se voltou para mim. “N\u00f3s n\u00e3o temos dinheiro para outra tentativa”.<\/p>\n\n\n\n “Nem eu”. Olhando para o resto dos homens e fam\u00edlias que dividiam a van conosco, parecia que todos estavam no mesmo barco. De uma forma ou de outra, esta seria uma viagem s\u00f3 de ida.<\/p>\n\n\n\n ***<\/p>\n\n\n\n 2046 – Sacramento, Calif\u00f3rnia<\/p>\n\n\n\n Eu estava a horas de dist\u00e2ncia do discurso mais importante de minha vida e n\u00e3o fazia ideia do que eu ia dizer.<\/p>\n\n\n\n “Sr. Governador, nossa equipe est\u00e1 trabalhando o mais r\u00e1pido que podem”, disse Josh. “Quando os n\u00fameros chegarem, os pontos de discuss\u00e3o estar\u00e3o terminados em pouco tempo”. Por enquanto, Shirley e sua equipe est\u00e3o organizando a coletiva de imprensa. E a equipe de seguran\u00e7a est\u00e1 em alerta m\u00e1ximo”. Sempre pareceu que ele estava tentando me vender algo, mas, de alguma forma, este assessor n\u00e3o conseguiu me dar resultados precisos, at\u00e9 o momento, nas pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica. Eu me perguntava se algu\u00e9m iria notar se eu o jogasse fora da limusine.<\/p>\n\n\n\n “N\u00e3o se preocupe, querido”. Selena apertou minha m\u00e3o. “Voc\u00ea vai se sair muito bem”.<\/p>\n\n\n\n Sua palma excessivamente suada n\u00e3o me deu muita confian\u00e7a. Eu n\u00e3o queria traz\u00ea-la, mas n\u00e3o era s\u00f3 o meu pesco\u00e7o na linha. Em uma hora, o futuro de nossa fam\u00edlia dependia do quanto o p\u00fablico e a m\u00eddia reagiriam bem ao meu discurso.<\/p>\n\n\n\n “Oscar, escute, sabemos o que os n\u00fameros v\u00e3o dizer”, disse Jessica, minha assessora de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. “Voc\u00ea vai ter que se sacrificar\u201d.<\/p>\n\n\n\n Jessica nunca foi de errar. E ela estava certa. Ou tomo o partido do meu pa\u00eds e perco meu escrit\u00f3rio, meu futuro, ou tomo o partido do meu povo e acabo em uma pris\u00e3o federal. Olhando para fora, eu daria tudo para trocar de lugar com algu\u00e9m dirigindo do lado oposto da rodovia.<\/p>\n\n\n\n “Oscar, isto \u00e9 s\u00e9rio”.<\/p>\n\n\n\n “Voc\u00ea acha que eu n\u00e3o sei disso, Jessica! Esta \u00e9 a minha vida… e o fim dela de qualquer maneira”.<\/p>\n\n\n\n “N\u00e3o, querido, n\u00e3o diga isso”, disse Selena. “Voc\u00ea vai fazer a diferen\u00e7a hoje”.<\/p>\n\n\n\n “Oscar, ela est\u00e1 certa”. Jessica curvou-se para frente, inclinando seus cotovelos nos joelhos, seus olhos perfurando os meus. “N\u00f3s… voc\u00ea tem uma chance de causar um impacto real na pol\u00edtica dos EUA com isto. A Calif\u00f3rnia \u00e9 agora um estado hisp\u00e2nico, voc\u00ea comp\u00f5e mais de 67% da popula\u00e7\u00e3o, e desde que o v\u00eddeo dos Cinco Nu\u00f1ez vazou na web na \u00faltima ter\u00e7a-feira, o apoio para acabar com nossas pol\u00edticas de fronteira racistas nunca foi t\u00e3o alto. Se voc\u00ea tomar uma posi\u00e7\u00e3o sobre isto, tome a lideran\u00e7a, use isto como uma alavanca para ordenar um levantamento do embargo aos refugiados, ent\u00e3o voc\u00ea enterrar\u00e1 Shenfield sob uma pilha de votos de uma vez por todas”.<\/p>\n\n\n\n “Eu sei, Jessica. Eu sei”. Era isso que eu deveria fazer, o que todos esperavam que eu fizesse. O primeiro governador hisp\u00e2nico californiano em mais de 150 anos e todos nos estados brancos esperavam que eu estivesse contra os ‘gringos’. E eu deveria. Mas eu tamb\u00e9m amo meu estado.<\/p>\n\n\n\n A grande seca durou mais de uma d\u00e9cada, piorando a cada ano. Eu podia v\u00ea-la fora de minha janela – nossas florestas haviam se tornado cemit\u00e9rios de freixo de troncos de \u00e1rvores queimadas. Os rios que alimentavam nossos vales j\u00e1 haviam secado h\u00e1 muito tempo. A ind\u00fastria agr\u00edcola do estado desmoronou em tratores enferrujados e vinhedos abandonados. Tornamo-nos dependentes da \u00e1gua do Canad\u00e1 e das ra\u00e7\u00f5es alimentares do Meio-Oeste. E desde que as empresas de tecnologia se mudaram para o norte, apenas nossa ind\u00fastria solar e nossa m\u00e3o-de-obra barata nos mantiveram \u00e0 tona.<\/p>\n\n\n\n A Calif\u00f3rnia mal podia alimentar e empregar seu povo na atual situa\u00e7\u00e3o. Se eu abrisse suas portas para mais refugiados de pa\u00edses em crise como M\u00e9xico e pa\u00edses na Am\u00e9rica do Sul, ent\u00e3o cair\u00edamos mais profundamente nas areias movedi\u00e7as. Mas perder a Calif\u00f3rnia para Shenfield significaria que a comunidade latina perderia sua voz, e eu sabia onde isso levava: de volta ao fundo do po\u00e7o. Nunca mais.<\/p>\n\n\n\n ***<\/p>\n\n\n\n Passaram horas que pareciam dias quando nossa van passou pela escurid\u00e3o, cruzando o deserto Sonoran, correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade que nos esperava na travessia da Calif\u00f3rnia. Com alguma sorte, meus novos amigos e eu ver\u00edamos o nascer do sol dentro dos Estados Unidos em apenas algumas poucas horas.<\/p>\n\n\n\n Um dos motoristas abriu a tela divis\u00f3ria do compartimento do furg\u00e3o e espichou sua cabe\u00e7a. “Estamos nos aproximando do ponto de entrega. Lembre-se de nossas instru\u00e7\u00f5es e voc\u00ea deve estar do outro lado da fronteira dentro de oito minutos. Esteja preparado para correr. Uma vez que voc\u00ea sair desta van, n\u00e3o ter\u00e1 muito tempo antes que os drones o vejam. Entendido?”.<\/p>\n\n\n\n Todos n\u00f3s acenamos com a cabe\u00e7a, finalizando seu discurso. O motorista fechou a divis\u00f3ria. A van fez uma curva repentina. Foi a\u00ed que a adrenalina entrou em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n “Voc\u00ea pode fazer isso, Marcos”. Eu podia v\u00ea-lo respirando mais pesado. “Voc\u00ea e seus irm\u00e3os”. Estarei bem ao seu lado o caminho todo”.<\/p>\n\n\n\n “Obrigado, Jos\u00e9. Importa-se se eu lhe perguntar uma coisa?”<\/p>\n\n\n\n Eu acenei afirmativamente.<\/p>\n\n\n\n “Quem voc\u00ea est\u00e1 deixando para tr\u00e1s?”<\/p>\n\n\n\n “Ningu\u00e9m.” Eu balancei a cabe\u00e7a. “N\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m”.<\/p>\n\n\n\n Disseram-me que eles vieram \u00e0 minha aldeia com mais de cem homens. Eles levaram tudo o que valia alguma coisa, especialmente as mulheres. Todos os outros foram obrigados a se ajoelhar em uma longa fila, enquanto pistoleiros colocavam uma bala em cada um dos cr\u00e2nios. Eles n\u00e3o queriam nenhuma testemunha. Se eu tivesse voltado \u00e0 aldeia uma ou duas horas antes, eu estaria entre os mortos. Sorte a minha, decidi sair para beber em vez de ficar em casa para proteger minha fam\u00edlia, minhas irm\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n ***<\/p>\n\n\n\n “Eu mandarei uma mensagem para voc\u00eas quando estivermos prontos para come\u00e7ar”, disse Josh, saindo da limusine.<\/p>\n\n\n\n Observei enquanto ele passava pelo pequeno n\u00famero de rep\u00f3rteres e guardas de seguran\u00e7a do lado de fora, antes de correr pela grama at\u00e9 o pr\u00e9dio do Capit\u00f3lio do Estado da Calif\u00f3rnia. Minha equipe tinha montado um p\u00falpito para mim no topo dos degraus ensolarados. N\u00e3o havia mais nada a fazer, a n\u00e3o ser esperar pela minha deixa.<\/p>\n\n\n\n Enquanto isso, caminh\u00f5es de not\u00edcias estavam estacionados do outro lado da Rua L, com mais ao longo da Rua 13, onde esper\u00e1vamos. Voc\u00ea n\u00e3o precisava de bin\u00f3culos para saber que isto ia ser um evento. O enxame de rep\u00f3rteres e operadores de c\u00e2mera amontoados no p\u00falpito s\u00f3 foi superado pelas duas multid\u00f5es de manifestantes que estavam atr\u00e1s da fita policial no gramado. Centenas apareceram – o lado hisp\u00e2nico sendo muito maior em n\u00famero – com duas linhas de pol\u00edcia de choque que separavam os dois lados enquanto gritavam e apontavam seus sinais de protesto um contra o outro.<\/p>\n\n\n\n “Querido, voc\u00ea n\u00e3o deve ficar olhando. Isso s\u00f3 vai te estressar mais”, disse Selena.<\/p>\n\n\n\n “Ela est\u00e1 certa, Oscar”, disse Jessica. “Que tal revermos os pontos de discuss\u00e3o uma \u00faltima vez?”<\/p>\n\n\n\n “N\u00e3o. J\u00e1 terminei com isso. Eu sei o que vou dizer. Estou pronto”.<\/p>\n\n\n\n ***<\/p>\n\n\n\n Mais uma hora se passou antes que a van finalmente diminu\u00edsse a velocidade. Todos dentro olharam uns para os outros. O homem sentado mais distante no interior come\u00e7ou a vomitar no ch\u00e3o \u00e0 sua frente. Logo, o furg\u00e3o parou. Chegou a hora.<\/p>\n\n\n\n Os segundos se arrastaram enquanto tent\u00e1vamos escutar as ordens que os motoristas recebiam pelo r\u00e1dio. De repente, as vozes est\u00e1ticas foram substitu\u00eddas pelo sil\u00eancio. Ouvimos os motoristas abrirem suas portas, depois a agita\u00e7\u00e3o do cascalho enquanto corriam ao redor da van. Eles abriram as portas traseiras enferrujadas, balan\u00e7ando-as com um motorista de cada lado.<\/p>\n\n\n\n “Todos para fora agora!”<\/p>\n\n\n\n A mulher da frente foi pisoteada enquanto catorze pessoas sa\u00edam correndo da van apertada. N\u00e3o havia tempo para ajud\u00e1-la. Nossas vidas ficaram suspensas em segundos. Ao nosso redor, outras quatrocentas pessoas sa\u00edram correndo de vans, como a nossa.<\/p>\n\n\n\n A estrat\u00e9gia era simples: chegar\u00edamos ao muro em n\u00famero suficiente para sobrecarregar os guardas de fronteira. Os mais fortes e r\u00e1pidos conseguiriam. Todos os outros seriam capturados ou fuzilados.<\/p>\n\n\n\n “Venha! Sigam-me!” Eu gritei para Marcos e seus irm\u00e3os, quando come\u00e7amos nosso sprint. O gigantesco muro de fronteira estava \u00e0 nossa frente. E o buraco gigante que o atravessou era nosso alvo.<\/p>\n\n\n\n Os guardas de fronteira \u00e0 nossa frente soaram o alarme enquanto a caravana de vans reiniciava seus motores e seus pain\u00e9is camuflados e retornavam para o sul. No passado, esse som era suficiente para afugentar metade das pessoas que at\u00e9 ousavam fazer essa corrida, mas n\u00e3o hoje \u00e0 noite. Hoje \u00e0 noite a multid\u00e3o ao nosso redor rugiu loucamente. N\u00e3o t\u00ednhamos nada a perder e um futuro inteiro a ganhar ao passar, e est\u00e1vamos apenas a tr\u00eas minutos de dist\u00e2ncia daquela nova vida.<\/p>\n\n\n\n Foi quando eles apareceram. Os drones. Dezenas deles flutuavam por tr\u00e1s da parede, apontando suas luzes brilhantes para a multid\u00e3o que avan\u00e7ava.<\/p>\n\n\n\n Flashbacks corriam pela minha mente enquanto meus p\u00e9s impulsionavam meu corpo para frente. Aconteceria exatamente como antes: os guardas de fronteira davam seus avisos pelos alto-falantes, disparavam tiros de advert\u00eancia, os drones atiravam balas de borracha contra os corriam na frente, depois os guardas e os drones atiravam sobre qualquer um que cruzasse a linha vermelha, dez metros \u00e0 frente do muro. Mas desta vez, eu tinha um plano.<\/p>\n\n\n\n Quatrocentas pessoas – homens, mulheres, crian\u00e7as – todos n\u00f3s corremos do desespero que tinha ficado para tr\u00e1s. Se Marcos, seus irm\u00e3os e eu estiv\u00e9ssemos entre os vinte ou trinta sortudos para sobreviver, ter\u00edamos que ser espertos. Eu nos guiei at\u00e9 o meio do grupo de corredores. Os corredores ao nosso redor nos protegeriam do fogo do drone. Enquanto isso, os corredores da frente nos protegeriam do fogo do drone que protegia o muro.<\/p>\n\n\n\n ***<\/p>\n\n\n\n O plano original era descer a Rua 15, a oeste na Rua 0, depois ao norte na Rua 11, para evitar a loucura, atravessar o Capit\u00f3lio e sair pelas portas principais diretamente para o meu p\u00falpito e audi\u00eancia. Infelizmente, uma s\u00fabita fila de furg\u00f5es de imprensa arruinou essa op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n Em vez disso, mandei a pol\u00edcia escoltar minha equipe e eu da limusine, atrav\u00e9s do gramado, pelo corredor da pol\u00edcia de choque e as multid\u00f5es gritando atr\u00e1s deles, ao redor da massa de rep\u00f3rteres, e finalmente subindo as escadas junto ao p\u00falpito. Eu estaria mentindo se dissesse que n\u00e3o estava nervoso. Eu quase podia ouvir meu cora\u00e7\u00e3o bater. Depois de ouvir Jessica no p\u00falpito dando as instru\u00e7\u00f5es iniciais e o resumo do discurso para os rep\u00f3rteres, minha esposa e eu avan\u00e7amos para tomar nosso lugar. Jessica sussurrou “boa sorte” enquanto pass\u00e1vamos. Selena ficou \u00e0 minha direita enquanto eu ajustava o microfone do p\u00falpito.<\/p>\n\n\n\n “Obrigada a todos por se juntarem a mim aqui hoje”, disse eu, passando as notas no e-paper preparado para mim, adiando o m\u00e1ximo que pude. Olhei para a minha frente. Os rep\u00f3rteres e suas c\u00e2meras de lentes gigantes miravam em mim, esperando ansiosamente que eu come\u00e7asse. Enquanto isso, as multid\u00f5es atr\u00e1s deles lentamente se acalmaram.<\/p>\n\n\n\n “H\u00e1 tr\u00eas dias, todos n\u00f3s vimos o horr\u00edvel v\u00eddeo do assassinato dos Cinco Nu\u00f1ez”.<\/p>\n\n\n\n A multid\u00e3o pr\u00f3-fronteira, anti-refugiados, zombou.<\/p>\n\n\n\n “Percebo que alguns de voc\u00eas podem se ofender comigo usando essa palavra. H\u00e1 muitos \u00e0 minha direita que sentem que os guardas da fronteira estavam corretos em suas a\u00e7\u00f5es, que ficaram sem outra alternativa a n\u00e3o ser usar for\u00e7a letal para proteger nossas fronteiras”.<\/p>\n\n\n\n O lado hisp\u00e2nico vaiou.<\/p>\n\n\n\n “Mas sejamos claros sobre os fatos. Sim, v\u00e1rias pessoas de descend\u00eancia mexicana e sul-americana atravessaram ilegalmente nossas fronteiras. Mas em nenhum momento eles estavam armados. Em nenhum momento eles representaram um perigo para os guardas da fronteira. E em nenhum momento eles foram uma amea\u00e7a para o povo americano.<\/p>\n\n\n\n “Todos os dias, nosso muro da fronteira bloqueia a entrada nos EUA de mais de dez mil refugiados mexicanos, centro-americanos e sul-americanos. Desse n\u00famero, nossos muros de fronteira matam pelo menos duzentos por dia. Estes s\u00e3o os seres humanos de que estamos falando. E para muitos dos que est\u00e3o aqui hoje, estas s\u00e3o pessoas que poderiam ter sido seus parentes. Estas s\u00e3o pessoas que poderiam ter sido n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n “Admito que, como latino-americano, tenho uma perspectiva \u00fanica sobre esta quest\u00e3o. Como todos sabemos, a Calif\u00f3rnia \u00e9 hoje um estado predominantemente hisp\u00e2nico. Mas a maioria daqueles que a tornaram hisp\u00e2nica n\u00e3o nasceu nos Estados Unidos. Como muitos americanos, nossos pais nasceram em outro lugar e se mudaram para este grande pa\u00eds para encontrar uma vida melhor, para se tornar americano e para contribuir para o sonho americano.<\/p>\n\n\n\n “Aqueles homens, mulheres e crian\u00e7as que esperam atr\u00e1s do muro da fronteira querem essa mesma oportunidade. Eles n\u00e3o s\u00e3o refugiados. Eles n\u00e3o s\u00e3o imigrantes ilegais. Eles s\u00e3o futuros americanos”.<\/p>\n\n\n\n A multid\u00e3o hisp\u00e2nica aplaudiu loucamente. Enquanto eu esperava que eles se acalmassem, notei que muitos deles estavam vestindo camisetas pretas com uma fase escrita.<\/p>\n\n\n\n Dizia: “N\u00e3o vou ajoelhar-me”.<\/p>\n\n\n\n ***<\/p>\n\n\n\n O muro estava atr\u00e1s de n\u00f3s agora, mas continuamos correndo como se estivesse nos perseguindo. Mantive meu bra\u00e7o sob o ombro direito de Marcos e ao redor de suas costas, enquanto o ajudava a manter o ritmo de seus irm\u00e3os a reboque. Ele tinha perdido muito sangue de uma ferida de bala no ombro esquerdo. Felizmente, ele n\u00e3o reclamou. E ele n\u00e3o pediu para parar. Conseguimos sobreviver, agora veio o trabalho de permanecer vivo.<\/p>\n\n\n\n O \u00fanico outro grupo que conseguiu passar conosco foi um grupo de nicaraguenses, mas n\u00f3s nos separamos deles depois de passarmos a cordilheira El Centinela. Foi a\u00ed que avistamos alguns drones fronteiri\u00e7os que se dirigiam do sul. Tive a sensa\u00e7\u00e3o de que eles visariam primeiro o grupo maior, seus sete contra os nossos cinco. Pod\u00edamos ouvir seus gritos enquanto os drones disparavam suas balas contra eles.<\/p>\n\n\n\n E mesmo assim continuamos. O plano era passar atrav\u00e9s do deserto rochoso para alcan\u00e7ar as fazendas ao redor do El Centro. Saltar\u00edamos as cercas, encher\u00edamos nossos est\u00f4magos famintos em qualquer planta\u00e7\u00e3o que encontr\u00e1ssemos, depois rumar\u00edamos para nordeste em dire\u00e7\u00e3o a Heber ou El Centro, onde poder\u00edamos tentar encontrar ajuda e cuidados m\u00e9dicos de hisp\u00e2nicos. Era um tiro no escuro; um tiro que eu temia que n\u00e3o pud\u00e9ssemos compartilhar.<\/p>\n\n\n\n “Jos\u00e9”, sussurrou Marcos. Ele olhou para mim sob sua testa suada. “Voc\u00ea tem que me prometer algo”.<\/p>\n\n\n\n “Voc\u00ea vai conseguir superar isto, Marcos. Voc\u00ea s\u00f3 tem que ficar conosco. Voc\u00ea v\u00ea aquelas luzes ali? Nas torres telef\u00f4nicas, perto de onde o sol est\u00e1 nascendo? N\u00e3o estamos longe agora. Encontraremos ajuda”.<\/p>\n\n\n\n “N\u00e3o, Jos\u00e9. Eu posso sentir isso. Eu estou…”<\/p>\n\n\n\n Marcos trope\u00e7ou em uma rocha e caiu no ch\u00e3o. Os irm\u00e3os ouviram e voltaram correndo. Tentamos acord\u00e1-lo, mas ele tinha desmaiado completamente. Ele precisava de ajuda. Ele precisava de sangue. Todos n\u00f3s concordamos em lev\u00e1-lo em pares, com uma pessoa segurando as pernas e outra segurando pelos bra\u00e7os. Andres e Juan foram os primeiros volunt\u00e1rios. Mesmo sendo eles os mais jovens, eles encontraram for\u00e7as para carregar seu irm\u00e3o mais velho em um ritmo de corrida. Sab\u00edamos que n\u00e3o havia muito tempo.<\/p>\n\n\n\n Uma hora se passou e pudemos ver claramente as fazendas \u00e0 nossa frente. A madrugada cedo pintou o horizonte acima com camadas de laranja p\u00e1lido, amarelo e p\u00farpura. Apenas mais vinte minutos. Roberto e eu est\u00e1vamos carregando Marcos at\u00e9 ent\u00e3o. Ele ainda estava pendurado, mas sua respira\u00e7\u00e3o estava ficando mais rasa. Tivemos que leva-lo para uma sombra antes que o sol ficasse suficientemente alto para transformar o deserto em uma fornalha.<\/p>\n\n\n\n Foi quando n\u00f3s os vimos. Duas caminhonetes brancas vinham em nossa dire\u00e7\u00e3o com um drone viando por cima delas. N\u00e3o adiantava correr. Est\u00e1vamos cercados por quil\u00f4metros de deserto aberto. Decidimos conservar a pouca for\u00e7a que nos restava e esperar pelo que quer que viesse. Na pior das hip\u00f3teses, pensamos que Marcos teria o cuidado de que precisava.<\/p>\n\n\n\n As caminhonetes pararam na nossa frente, enquanto o drone circulava atr\u00e1s de n\u00f3s. “M\u00e3os atr\u00e1s da cabe\u00e7a! Agora!” comandou uma voz atrav\u00e9s dos alto-falantes do drone.<\/p>\n\n\n\n Eu sabia ingl\u00eas suficiente para traduzir para os irm\u00e3os. Coloquei minhas m\u00e3os atr\u00e1s da cabe\u00e7a e disse: “N\u00e3o temos armas”. Nosso amigo. Por favor, ele precisa de sua ajuda”.<\/p>\n\n\n\n As portas das caminhonetes se abriram. Cinco homens grandes, fortemente armados, sa\u00edram. Eles n\u00e3o pareciam guardas de fronteira. Eles caminharam na nossa dire\u00e7\u00e3o com as armas apontadas. “Para tr\u00e1s!” ordenou o atirador principal, enquanto um de seus parceiros caminhava em dire\u00e7\u00e3o a Marcos. Os irm\u00e3os e eu lhes demos espa\u00e7o, enquanto o homem se ajoelhava e pressionava seus dedos na lateral do pesco\u00e7o de Marcos.<\/p>\n\n\n\n “Ele perdeu muito sangue. Ele tem mais trinta minutos no m\u00e1ximo, n\u00e3o tem tempo suficiente para lev\u00e1-lo ao hospital”.<\/p>\n\n\n\n “Que se lixe ent\u00e3o”, disse o pistoleiro principal. “N\u00f3s n\u00e3o somos pagos por mexicanos mortos”.<\/p>\n\n\n\n “O que voc\u00ea est\u00e1 pensando?”<\/p>\n\n\n\n “Ele foi baleado uma vez”. Quando o encontrarem, ningu\u00e9m vai fazer perguntas se ele foi baleado duas vezes”.<\/p>\n\n\n\n Meus olhos se alargaram. “Espere, o que voc\u00ea est\u00e1 dizendo? Voc\u00ea pode ajudar. Voc\u00ea pode…” <\/p>\n\n\n\n O homem ao lado de Marcos se levantou e atirou no peito dele. Os irm\u00e3os gritaram e correram para o irm\u00e3o, mas os pistoleiros avan\u00e7aram com suas armas apontadas para a nossa cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n “Todos voc\u00eas! M\u00e3os atr\u00e1s de suas cabe\u00e7as! Ajoelhem-se no ch\u00e3o! Vamos lev\u00e1-los para o campo de deten\u00e7\u00e3o”.<\/p>\n\n\n\n Os irm\u00e3os choraram e fizeram o que lhes foi dito. Eu me recusei.<\/p>\n\n\n\n “Ei! Voc\u00ea mexicano de merda, n\u00e3o me ouviu? Eu disse para voc\u00ea se ajoelhar!”<\/p>\n\n\n\n Olhei para o irm\u00e3o de Marcos, depois para o homem que apontava sua espingarda para a minha cabe\u00e7a. “N\u00e3o. N\u00e3o vou ajoelhar-me”.<\/p>\n\n\n\n O Futuro das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas:<\/strong><\/p>\n\n\n\n III GUERRA MUNDIAL \u2013 GUERRA CLIM\u00c1TICA<\/strong><\/p>\n\n\n\n III Guerra Mundial: Guerra Clim\u00e1tica: Como 2 graus levar\u00e3o \u00e0 guerra mundial \u2013 Parte 1<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n III Guerra Mundial \u2013 Guerra Clim\u00e1tica: Estados Unidos, M\u00e9xico: um conto sobre a fronteira. \u2013 Parte 2 (Fic\u00e7\u00e3o)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n China: A vingan\u00e7a do Drag\u00e3o Amarelo: III Guerra Mundial \u2013 Guerra Clim\u00e1tica \u2013 Parte 3 (Fic\u00e7\u00e3o)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n III Guerra Mundial \u2013 Guerra Clim\u00e1tica: Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia: Um acordo que deu errado \u2013 Parte 4 (Fic\u00e7\u00e3o)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n III Guerra Mundial \u2013 Guerra Clim\u00e1tica: Europa, Fortaleza Brit\u00e2nica – Parte 5 (Fic\u00e7\u00e3o)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n III Guerra Mundial \u2013 Guerra Clim\u00e1tica: R\u00fassia, o nascimento de uma fazenda – Parte 6 (Fic\u00e7\u00e3o)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n III Guerra Mundial \u2013 Guerra Clim\u00e1tica: \u00cdndia: \u00e0 espera de fantasmas – Parte 7 (Fic\u00e7\u00e3o)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n III Guerra Mundial \u2013 Guerra Clim\u00e1tica: Oriente M\u00e9dio: voltando a ser deserto – Parte 8 (Fic\u00e7\u00e3o)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n III Guerra Mundial \u2013 Guerra Clim\u00e1tica: \u00c1frica: defendendo uma mem\u00f3ria – Parte 9 (Fic\u00e7\u00e3o)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n WWIII GUERRAS CLIM\u00c1TICAS: A GEOPOL\u00cdTICA DA MUDAN\u00c7A CLIM\u00c1TICA<\/strong><\/p>\n\n\n\n China, ascens\u00e3o de uma nova hegemonia global: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Parte 10<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n Europa: Ascens\u00e3o dos regimes brutais: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Parte 11<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia: fortalezas de gelo e fogo: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Par<\/strong>te 12<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n Estados Unidos vs. M\u00e9xico: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Parte 13<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n R\u00fassia: o imp\u00e9rio contra-ataca: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Parte 14<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n \u00cdndia e Paquist\u00e3o; fome e feudos: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Parte 15<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n Oriente M\u00e9dio: Colapso e radicaliza\u00e7\u00e3o do mundo \u00e1rabe: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Parte 16<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n Sudeste Asi\u00e1tico: Colapso dos tigres: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Parte 17<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n \u00c1frica: Continente da fome e da guerra: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Parte 18<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n Am\u00e9rica do Sul: Continente de revolu\u00e7\u00e3o: Geopol\u00edtica da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 Parte 19<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n WWIII GUERRAS CLIM\u00c1TICAS: O QUE PODE SER FEITO<\/strong><\/p>\n\n\n\n Os governos e o novo acordo global: Fim das Guerras Clim\u00e1ticas – Parte 20<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n