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O que me preocupa, além de todas as outras preocupações

Fabrícia Botelho

Estamos em 2026 e tenho a sensação de que quase todas as instituições que, durante muito tempo, organizaram a nossa vida estão morrendo, ou pelo menos muito doentes.

O Estado parece morto. A escola agoniza. A igreja vive uma séria dissociação entre aquilo que prega e aquilo que pratica. O trabalho está sob ataque de forças inteligentes que ainda nem entendemos direito. E sobra a família, meio raquítica, cheia de novos arranjos, contradições e problemas, mas ainda assim me parece a instituição mais viva de todas.

E isso me preocupa.

Porque essas instituições nunca serviram apenas para aquilo que estava escrito na porta.

A escola não existia só para ensinar português, matemática ou história. Existia ali uma promessa: estude, se prepare, faça uma faculdade e você terá um futuro melhor.

O trabalho também não era apenas uma garantia de salário. Durante muito tempo ele disse quem éramos. Organizou nossa rotina, nossas relações, nosso lugar no mundo e uma certa ideia de progresso. Trabalhe, cresça, construa uma carreira, compre sua casa, se aposente.

A igreja, para quem acredita, nunca foi apenas um lugar onde se vai aos domingos. Ela ajudava a explicar o inexplicável, estabelecia alguns códigos para a vida em sociedade e criava pertencimento.

O Estado deveria garantir alguma ordem, mediar interesses diferentes e assegurar que existe alguma coisa acima das vontades individuais capaz de fazer a sociedade funcionar.

E a família, com todos os seus problemas, sempre foi o primeiro lugar onde aprendemos uma coisa muito simples e muito importante: eu pertenço a algum lugar.

Só que as promessas que sustentavam tudo isso começaram a falhar.

Você pode estudar muito e não encontrar o futuro profissional que imaginou. Pode trabalhar muito e continuar sem segurança. Pode seguir todas as regras e assistir quem não segue se dar muito bem. Pode confiar nas instituições e descobrir que elas próprias parecem não saber exatamente para onde estão indo, além de estarem ativamente te prejudicando.

Então talvez não estejamos vivendo apenas uma crise das instituições. Estamos vivendo uma crise das promessas desfeitas.

E quando essas promessas deixam de funcionar, alguma coisa precisa ocupar o espaço.

É aí que a coisa fica assustadora.

Influenciadores começam a ocupar o lugar de autoridades. Comunidades digitais oferecem o pertencimento que antes encontrávamos em espaços físicos. Empresas assumem discursos sobre valores, propósito e sociedade. Algoritmos decidem boa parte daquilo que vemos e, portanto, ajudam a construir aquilo que acreditamos ser importante. E a inteligência artificial começa a entrar em lugares que até outro dia pertenciam a professores, especialistas, colegas e até amigos.

Talvez as instituições não estejam simplesmente desaparecendo. Talvez estejamos assistindo a uma enorme transferência de autoridade.

Do professor para a plataforma. Do jornalista para o criador de conteúdo. Da empresa para o indivíduo. Do especialista para a inteligência artificial. Da comunidade física para a comunidade digital.

Durante muito tempo entregamos partes importantes da nossa vida a intermediários. À escola entregamos o conhecimento. Ao Estado, a organização coletiva. À igreja, parte dos nossos códigos morais. Ao trabalho, boa parte da nossa identidade. Aos meios de comunicação, a tarefa de contar o que estava acontecendo no mundo.

Agora acessamos praticamente tudo diretamente.

E é difícil não gostar dessa ideia. Existe uma liberdade enorme nisso.

Só que começamos a descobrir o outro lado dessa liberdade.

Nunca tivemos tanto acesso à informação e foi tão difícil saber em quem confiar.

Nunca tivemos tantas formas de nos conectar e tanta gente se sentiu sozinha.

Nunca tivemos tanta possibilidade de construir nossa própria visão de mundo e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para construir uma visão de mundo minimamente compartilhada.

Cada um morando na sua própria realidade.

Meu algoritmo. Minha comunidade. Minha fonte. Meu especialista. Minha verdade. Minha cerveja artesanal…brincadeira.

E aí fica muito difícil conversar.

Porque já não discordamos apenas sobre as respostas. Muitas vezes estamos discordando até sobre qual é a pergunta e sobre os fatos que deveriam iniciar a conversa.

Talvez por isso tudo pareça tão fora de ordem.

O Estado, que deveria ajudar a organizar a casa, perdeu as chaves. A escola ainda tenta descobrir o que precisa ensinar para alguém que provavelmente vai trabalhar em profissões que ainda nem existem. O trabalho tenta entender o que continuará sendo trabalho. A religião procura seu lugar. E a família tenta segurar as pontas.

E é justamente a família que mais me interessa nessa história.

Não porque ela seja perfeita. Nunca foi. Nem porque exista apenas uma forma possível de família. Também não existe.

Mas porque talvez ela ainda preserve uma coisa que está ficando rara: vínculo sem algoritmo.

Na família você não dá unfollow porque alguém pensa diferente. Ou pelo menos não deveria.

Você convive. Se irrita. Discute. Negocia. Cuida. Perdoa. Se decepciona. Volta para o almoço de domingo.

Existe alguma coisa nesse exercício de continuar pertencendo mesmo quando não concordamos em tudo que talvez esteja fazendo muita falta fora dela.

Por isso não acho que a questão dos próximos anos seja simplesmente quais instituições vão sobreviver.

A pergunta que me interessa é outra.

O que vai ocupar o lugar daquelas em que já não acreditamos?

Porque alguma coisa vai ocupar.

Ser humano precisa de pertencimento, de referência, de algum tipo de ordem e, principalmente, precisa confiar em alguém ou em alguma coisa.

Podemos acabar com intermediários, descentralizar sistemas, automatizar decisões e colocar inteligência em praticamente tudo.

Mas continuaremos tendo que responder perguntas muito antigas.

Em quem eu confio?

Ao quê pertenço?

Quem cuida de quem?

O que devemos uns aos outros?

A quem recorrer em caso de despressurização da cabine?

E como conseguimos viver juntos quando pensamos de maneiras completamente diferentes?

Talvez seja isso que esteja por trás da sensação estranha de que alguma coisa acabou, mas a próxima ainda não começou.

Estamos no meio.

As instituições que organizaram boa parte do século XX já não dão conta de explicar o século XXI. E as que vão substituí-las ainda estão sendo construídas, muitas vezes sem que a gente perceba.

E talvez seja isso que mais me preocupa.

Não o fato de as velhas instituições estarem morrendo.

Mas quem, ou o quê, está se candidatando para ocupar o lugar delas.

E o que vamos atravessar, como civilização, até que uma nova ordem se estabeleça.

Ou até que a gente simplesmente se adapte à desordem.

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